Segunda-feira, Agosto 10, 2009

Canto pra esquecer a dor da vida
Sei que o destino do amor
É sempre a despedida
A tristeza é o grão
Saudade é o chão onde eu planto
Do ventre da solidão
É que nasce o meu canto

Lavoura * Teresa Cristina e Grupo Semente

Quarta-feira, Agosto 05, 2009

Como em "Sinal fechado", um encontro de um instante com alguém que já esteve próximo e agora está distante e não se sabe bem como falar, o que dizer, o que tratar. É assim que me sinto nessa parca aproximação.
O porquê de te excluir totalmente da minha vida. Foi uma tristeza, uma chateação, que cresceu com a angústia. Foi a não-resposta. Foi a ligação que aguardei, foram os dias sós de tristeza, foram as lágrimas da espera. Tudo parece tão exagerado agora, mas no calor dos acontecimentos, as coisas tomam as proporções que elas têm, grandes. E eu fiquei muito tempo tentando entender aquele momento, mas n pude. Acho que não é passível de entendimento. Bastava olhar nos meus olhos para saber. Você os viu, ou talvez, não pudesse os ver de verdade. Penso que seja difícil. Diante da dor dos outros, ficamos muitas vezes sem reação. Principalmente, quando esta pode provocar mal em nós.
Bem, nem eu mesma soube o que quis ao retornar. Quis abrir o canal para ver se havia o que comunicar. Eu não sei, você sabe?
Senti sua ausência e pude melhor entender Borges.

Nos rascunhos do gmail, em 1º de julho de 2008.

Domingo, Maio 10, 2009

LXXIII

Recordarás talvez aquele homem afilado
que da escuridão saiu como uma faca
e, antes de que soubéssemos, sabia:
viu a fumaça e decidiu que vinha do fogo.

A pálida mulher de cabeleira negra
surgiu como um peixe doo abismo
e entre os dois alçaram ao encontro do amor
uma máquina armada de dentes numerosos.

Homem e mulher talaram montanhas e jardins,
desceram os rios, ascenderam pelos muros,
subiram pelos montes sua atroz artilharia.

O amor soube então que se chamava amor.
E quando levantei meus olhos a teu nome
teu coração logo dispôs de meu caminho.


Pablo Neruda

Domingo, Março 29, 2009

a fronteira

"O relato entusiasmado das esperanças do corpo era o eco melancólico do relato sobre as esperanças do gênero humano."
p.248

"O riso estava ali como uma enorme armadilha que esperava pacientemente na peça, escondido atrás de uma parede fina e invisível. Apenas alguns milímetros separavam o amor físico do riso, e ele receava transpô-los. Alguns milímetros o separavam da fronteira além da qual as coisas não têm mais sentido."
p. 247

"Todos os homens tem duas biografias eróticas. Em geral só se fala da primeira, que se compõe de uma lista de casos de encontros amorosos.
A mais interessante é sem dúvida alguma a outra biografia: o bando de mulheres que queríamos ter e que nos escaparam, a história dolorosa das possibilidades irrealizadas.
Mas existe ainda uma terceira, uma misteriosa e inquietante categoria de mulheres. Elas nos agradam, nós lhe agradamos, mas ao mesmo tempo compreendemos logo que não podíamos tê-las porque, na nossa relação com elas, nos encontramos do outro lado da fronteira."

p.239
"E, subitamente, não há paz no reino onde as coisas são leves como a brisa."
p.213

Sábado, Março 21, 2009

O que me faz pensar que, quando não se pode nem dar um tapa numa moça que nada muito depressa nem se deixar matar pelos persas, quando não existe mais nenhuma maneira de escapar da litost, então a graça da poesia voa em nosso socorro.


Milan Kundera. O livro do riso e do esquecimento. p.181.

Domingo, Março 15, 2009

Litost

O que é Litost?

Litost é uma palavra tcheca intraduzível. Sua primeira sílaba, que se pronuncia de maneira longa e acentuada, lembra o lamento de um cachorro abandonado. Para o sentido da palavra, procuro inutilmente um equivalente em outras línguas, embora tenha dificuldade de imaginar que se possa compreender a alma humana sem ela.
Vou dar um exemplo: o estudante tomava banho com sua amiga, também estudante no rio. A moça era esportista, mas ele nadava muito mal. Não sabia respirar embaixo d'água, nadava devagar, a cabeça nervosamente levantada acima da superfície. A estudante estava tão irracionalmente apaixonada por ele e era tão delicada que nadava quase tão devagar quanto ele. Mas como o horário de banho estava quase na hora de acabar, por um instante ela quis dar livre curso a seu instinto esportivo e dirigiu-se num crawl rápido à margem oposta. O estudante fez um esforço para nadar mais depressa, mas engoliu água. Sentiu-se diminuído, desmascarado em sua inferioridade física, e sentiu a litost. Lembrou-se de sua infância doentia, sem exercícios físicos e sem amigos, sob o olhar excessivamente afetuoso da mãe e ficou desesperado consigo mesmo e com sua vida. Ao voltarem para casa por um caminho campestre, os dois se conservaram calados. Ferido e humilhado, ele sentia um irresistível desejo de bater nela. "O que está acontecendo com você?", ela perguntou, e ele a censurou: ela sabia muito bem que havia correntes perto da outra margem, ele a tinha proibido de nadar daquele lado, porque ela corria o risco de se afogar - e deu-lhe um tapa no rosto. A moça começou a chorar e, diante das lágrimas em seu rosto, ele sentiu pena dela, tomou-a nos braços e seu litost se dissipou.
Ou então um outro acontecimento da infância do estudante: seus pais fizeram tomar lições de violino. Ele não era muito dotado e o professor o interrompia com uma voz fria e insuportável, censurando-lhe os erros. Ele se sentia humilhado e tinha vontade de chorar. Mas, em vez de se esforçar para tocar de maneira correta e não cometer erros, ele se enganava deliberadamente, a voz do professor ficava ainda mais insuportável e dura, e ele mergulhava cada vez mais em sua litost.
Então, o que é a litost?
A litost é um estado atormentador nascido do espetáculo de nossa própria miséria repentinamente descoberta.
Entre os remédios habituais contra nossa própria miséria, há o amor. Pois aquele que é amado de maneira absoluta não pode se sentir miserável. Todas as fraquezas são resgatadas pelo olhar mágico do amor, sob o qual mesmo um nado desajeitado, com a cabeça para fora da superfície da água, pode tornar-se sedutor.
O absoluto do amor é na realidade um desejo de identidade absoluta: é preciso que a mulher que amamos nade tão devagar quanto nós, é preciso que ela não tenha um passado que lhe pertença particularmente e do qual possa se lembrar com alegria. Mas, quando a ilusão da identidade absoluta é quebrada (a moça se lembra com alegria de seu passado ou então nada depressa), o amor se torna fonte permanente do grande tormento que chamamos litost.
Aquele que temm uma experiência profunda da imperfeição própria do homem está relativamente a salvo dos choques da litost. O espetáculo de sua própria miséria é para ele algo banal e sem interesse. A litost é portanto própria da idade da inexperiência. É um dos ornamentos da juventude.
A litost funciona como um motos a dois tempos. Ao tormento se segue o desejo de vingança. O objetivo de vingança é conseguir que o parceiro se mostre igualmente miserável. O homem não sabe nadar, mas a mulher que levou o tapa chora. Eles podem, portanto, se sentir iguais e perseverar em seu amor.
Como vingança nunca pode revelar seu verdadeiro motivo (o estudante não pode confessar à moça que lhe bateu porque ela nada mais depressa que ele), a vingança precisa invocar razões falsas. A litost portanto nunca pode dispensar uma patética hipocrisia: o rapaz proclama que está morto de medo porque sua amiga corre o risco de se afogar, a criança toca sem parar uma nota errada, simulando irremediável falta de talento.
Este capítulo deveria chamar-se primeiramente "Quem é o estudante?". Mas, se tratou da litost, é como se tivesse tratado do estudante, que não passa de uma litost em forma de gente. Não é portanto de espantar que a estudante, por quem ele estava apaixonado, tenha acabado por deixá-lo. Não é nada agradável apanhar porque se sabe nadar.
A mulher do açougueiro, que ele encontrou na sua cidade natal, surgiu-lhe como um grande curativo, pronta para tratar de suas feridas. Ela o adorava, o divinizava e, quando ele lhe falava de Schopenhauer, ela não tentava manifestar com objeções de personalidade própria, independente da dele (como tinha feito a estudante da triste memória), mas o olhava com olhos nos quais ele imaginava perceber até lágrimas, de tão comovido que ficava com a emoção da sra. Christine. Também não esqueçamos de acrescentar que ele não tinha dormido com mulher nenhuma desde que rompera com a estudante.



Milan Kundera. O livro do riso e do esquecimento. pp. 143-146.

em vão

Eu grito que não devo
Eu choro que não posso
Eu digo que não vou
mas espero.
Deixo a dúvida suspensa
Deixo em dúvida todos os momentos
Em suspensão, todas as angústias
Como poeira no ar
O espaço é névoa
A respiração, pausada
o tempo dilata
Percebo mil nuances
E espero.
O seu retorno.
Um novo encontro.
Outras palavras que me enlouqueçam
a escutá-las continuamente
na desordem dos pensamentos
na tentativa de decifrá-las,
de descobrir uma nova significação
antes não possibilitada
pela velocidade dos acontecimentos
ou por uma análise menos minunciosa
na esperança de qualquer engano
que desse vida ao que já parece acabado
O desejo de indeterminação é esperança
dos amantes em negação.

Em vão.

Quinta-feira, Março 12, 2009

risíveis amores

Que o gosto banal da província tem uma concepção falsa da beleza, e que essa concepção é essencialmente estranha ao erotismo, que ela é mesmo antierótica, ao passo que o encanto verdadeiro, o encanto erótico explosivo, permanece desconhecido para quem possui esse gosto. Existem, em torno de nós, mulheres que poderiam fazer um homem conhecer as mais vertiginosas aventuras dos sentidos, e ninguém as enxerga.

Milan Kundera, Risíveis amores.

[citação-presente da Lua]
A vida contrai-se e expande-se proporcionalmente à coragem do indivíduo.
Anais Niin